terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

O gigante Brando

Filmes podem ser bons por diversos motivos. Uma boa direção, um bom roteiro, uma boa fotografia, uma boa cenografia, efeitos especiais... Seja lá qual for a característica, às vezes um único elemento pode ser essencial para a apreciação de uma obra. No caso dos filmes de narrativa tradicional, não há o que se negar que a atuação dos protagonistas pode influenciar decisivamente no resultado final de uma obra. Claro, existem atuações médias e fracas em bons filmes, mas existem também atuações excelentes em filmes menores.


Sindicato de Ladrões (On the Waterfront), clássico de 1954 dirigido por Elia Kazan já seria um bom filme ao abordar o tema da exploração exercida por gângsteres nas docas de Nova Iorque, mas é com Terry Malloy, personagem interpretado por Marlon Brando que o filme se trona excelente.


É na fita de Kazan que Brando, em sua melhor fase, compõe um personagem que é somente um joguete nas mãos dos gângsteres que controlam o sindicato, que precisa lidar com o peso de sua consciência e a inevitável busca por redenção. E se o olhar profundo e triste do personagem, perdido no horizonte dos telhados onde cuida dos pombos ou a crescente vivacidade de seus gestos ao se apaixonar pela ingênua Edie (Eva Marie Saint) não convencem quanto ao peso nos ombros de Malloy, é na cena do táxi, onde Terry conversa com o irmão Charlie (Rod Steiger), que Brando expressa de maneira emocionante todo o desmonte do orgulho próprio de Terry ao admitir o próprio fracasso através de sua impotência e dependência dos outros. O olhar de “tudo o que poderia ter sido” é devastador, tanto para Charlie quanto para o espectador, que nada mais pode fazer a não ser torcer para que Terry encontre um lugar em de paz.


A seguir, um link para a bela cena, mas fica a indicação para que o filme na integra possa ser assistido e apreciado.


Até a próxima.


ps: infelizmente, não encontrei uma versão legendada, mas talvez isso possa servir como mais um estímulo para se ir atrás do filme.  ;-)




Juventude

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Aparte os vários temas abordados nos textos do último post, destaco agora um triste fato: pouquíssimas pessoas assistiram ao filme Juventude, produção mais recente do cineasta Domingos de Oliveira (dos filmes Todas as Mulheres do Mundo, A Culpa, Carreiras, entre outros).


Juventude mostra o encontro de três amigos na casa dos setenta anos, David (Paulo José), Ulisses (Aderbal Freire Filho) e Antônio (o próprio Domingos) durante um fim de semana (ou talvez, apenas um dia desse fim-de-semana, essa passagem do tempo ficou um pouco confusa para mim) na casa de David.


Há espaço suficiente para a galhofa entre os amigos, para cada um contar a história de um grande amor, para relembrar o passado, para se arrepender dos erros e, com algum custo, para olhar para o tempo que ainda lhes resta pela frente.


O texto é de uma incrível beleza, só tendo podido mesmo ter sido escrito por um artista que viveu a vida intensamente e a dedicou a arte e a busca por sentimentos de prazer e alegria, nas melhores formas que poderiam ocorrer tal busca. Penso na dificuldade que seria para um roteirista mais jovem escrever um texto com tamanha carga de experiências vividas nas costas e com uma franqueza visceral (claro que existem casos bem sucedidos desse tipo de empreitada). Os três atores dominam suas cenas, e, já gigantes naturalmente, crescem ainda mais quando a dinâmica da cena envolve os três ao mesmo tempo. Bonito ver o encontro de Paulo José e Domingos de Oliveira, mais de quarenta anos depois do filme de estréia do cineasta, o ótimo Todas as Mulheres do Mundo (1966) com Paulo José como o protagonista.


Sem dúvida há certo ar de nostalgia que permeia o filme, mais por parte de seus protagonistas que do espectador, que consegue sentir esse sentimento de maneira menos aflitiva, quase que a apreciando por ser ela o combustível para as ações e revelações dos personagens, e sabemos que quanto mais lembranças eles tiveram, mais fortes serão as conseqüências de suas auto-analises. A bonita-tristeza que envolve os homens com a velhice e uma maturidade, enfim, consciente, é a força motor desse filme simbólico desde o seu título, Juventude.


O filme é todo gravado em câmera digital e por isso, eventualmente podem ser percebidos problemas no som ou na luz da locação. Mas são problemas essencialmente técnicos, e que em momento algum prejudicam o desenvolvimento do filme, que se preocupa mesmo com o texto e com o aspecto humano de seus personagens. E se por vezes a técnica digital é falha, talvez possamos pensar que ela age aqui como seus personagens, velhos e novos ao mesmo tempo em carne e espírito, com falhas, porque são humanos, demasiado humanos.


Quando fui procurar os horários e locais onde passavam o filme a algumas semanas, encontrei-o apenas em uma sala de cinema. Se não me engano, ele estreou com talvez uma ou duas salas a mais que esse número. Uma pena, pois o filme do cineasta, ator e dramaturgo Domingos de Oliveira é de uma beleza triste e madura, uma pequena peça de experiências de vida a ser dividida com um público que, infelizmente, não pôde apreciá-la.


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Velhos problemas...

Reproduzo aqui três interessantes textos publicados no site da Revista Bravo! e que dizem respeito, entre outras coisas, à forma de distribuição dos filmes nacionais, das salas de cinema e do eventual fracasso do chamado "filme de arte". São dois textos de Gabriela Rassy e um texto-depoimento do cineasta Domingos de Oliveira, publicado em seu blog que também faz parte do site da Bravo!, que se complementam e acabam reafirmando alguns fatores que são realidade no que diz respeito a exibição dos filmes nacionais. Sem o intuito de defender as opiniões expressas, acredito que a leitura desses textos sirva como mais uma relevante fonte de informação para aqueles que se interessam pelo cinema nacional, sejam produtores, realizadores ou espectadores.

O Fracasso da Qualidade

O FRACASSO DA QUALIDADE

Tento compreender porque meu filme "Juventude", embora tenha sido um notável sucesso de crítica, mais que isso, junto a amigos, intelectuais e artistas, é um fracasso em número de espectadores atingindo, até hoje, 22 de janeiro de 2009, não mais que 12 mil espectadores. Tento entender como um filme que provoca uma profunda comoção, que é unânime entre as cabeças pensantes ou sensíveis, pode ser um fracasso de bilheteria! O quanto vale o famoso boca a boca no cinema brasileiro? Ele é o verdadeiro espelho do agrado do filme. Quanto vale isto? Em casos como o "Juventude", parece não valer nada. Ou será que a platéia inteligente vai, mas não recomenda? Tudo é possível.

Esse artigo não é sobre o "Juventude" e sim sobre vários outros filmes bons, onde o mesmo ocorreu. É uma tentativa de compreender o fracasso da Qualidade. É preciso, antes de tudo, entender que o mercado é absurdamente dispare. Que dada existência de patrocínios, as despesas gastas com comercialização são muito diferentes, criando, evidentemente, uma concorrência injusta e desleal com os filmes que não têm verba e propaganda. É uma luta de David e Golias, um sendo exibido no cinema ao lado do outro.

Muitas coisas levam o espectador ao cinema além da qualidade. Principalmente:

O número de cópias

O número de cinemas em que foi lançado

Se tem ou não artistas da Globo ou outros igualmente midiáticos

É evidente que esses valores acima falam a favor do chamado "filme comercial" de assunto e linguagem fáceis ou pouco criativos. Claro que há exceções dos bons filmes do divertimento como o de Daniel Filho, que é uma espécie de Monicelli brasileiro. Porém sabemos que falar de números é falar de nada. Números são manipuláveis. É evidente que o agrado de um filme é importante.

Um filme não é feito para divertir, apenas. É feito para ensinar a viver. Será necessário fazer filmes ruins num país pobre como o Brasil? É evidente que não. O necessário é fazer filmes bons. Que cheguem ao coração da platéia. Que lhes ensine a ser melhores pessoas, melhores cidadãos, tornar mais justa nossa cruel sociedade. Dificilmente esse tipo de filme pode ser feito a muitas mãos. Em geral, são filmes de um homem só, o autor, a visão de mundo de um homem que, em achando que a vida vale à pena, grita isso para os outros. Sob forma de elogio das grandes qualidades humanas, a dignidade, a honestidade, o amor, o patriotismo, a ética, ou seja, os valores que construíram essa nossa humanidade. Esses filmes valem à pena ser feitos. Os outros não. Ou melhor, devem ser feitos sem apoio do Estado.

Não há nenhum vestígio na Legislação Brasileira de Cinema de medidas que protejam decididamente esse tipo de filme: o filme de Arte. Muito pelo contrário. Cada vez mais se considera como valor magno a bilheteria bruta. Aquilo que o filme rende em dinheiro. Como se esse fosse seu único valor. A TV Globo estabelece o valor financeiro dos filmes que compra através de bilheteria. Mesmo no moderno Funcine, que é uma ótima idéia, a bilheteria dos filmes anteriores conta prioritariamente.

Bilheteria é importante, sem dúvida. Até numa obra de arte. Tudo de que eu ouvi falar até hoje chegou até mim porque deu dinheiro. Beethoven deu dinheiro. Kafka deu dinheiro. A arte é invencível. Mais cedo ou mais tarde ela alcança a todos e dá dinheiro. Na maior parte das vezes, fora do período de vida do artista. Que, por isso, produziu menos. É uma lástima.

O cinema brasileiro tem de representar o mercado internacional, na pequena faixa disponível para isso. O que tem sido tentado através de filmes que de alguma forma imitam o tipo de filme que os americanos fazem.

O filme de baixo orçamento é desprezado e o altíssimo orçamento louvado. É a máxima que dinheiro traz dinheiro. E traz mesmo. Mas é importante que as autoridades apóiem isso.

Reivindico o Ministério da Arte. Regido por artistas. Fora de qualquer suspeita, que privilegiam somente o mérito. A arte do filme. Não é preciso um ministério com grandes dotações orçamentárias. Seria o minúsculo ministério. Porém ministério. Que ajudasse a criar a importância social do cinema e que fizesse do cinema o retrato do país. Que ajudasse, na sua diversidade, tanto os escolhidos quanto os milionários. Num cinema de alto aspecto e virulência emocional. Esses filmes são os únicos que podem vencer a barreira do mercado internacional. São esses filmes que carregariam a chamada, proclamada e desejada indústria cinematográfica. Assim como a locomotiva carrega o trem. É preciso igualmente incentivar o filme independente e patrociná-lo a posteriori, se for bom. Coisa que é proibido na legislação atual que patrocina roteiros, a forma das mais difíceis de ler de toda a literatura. Preconizo a volta da meritocracia artística. Caso contrário, estaremos diante do primado da mediocridade. Da idéia inútil e repetida, da mensagem conformista. No entanto, são outros valores que, crivados de burocracia criam os editais de patrocínios. Ou dão o dinheiro diretamente.

A incompreensão das autoridades e dos burocratas responsáveis sobre este ponto fundamental é o problema do cinema brasileiro. Para completar, por favor, ninguém levante o argumento de que é difícil e subjetivo julgar o que é ou não é arte. Mentira! Mentira maliciosa! A arte brilha como sol. Dá frutos abundantes em todas as estações. É reconhecível à primeira vista. E, se não for, basta perguntar a um artista de verdade que já tenha emocionado muita gente.

Por mim, boto meu roteiro novo em mérito, a melhor coisa que já escrevi, e também minha peça nova, a melhor que já escrevi, embaixo do braço. Me armo com a lanterna da paciência e saio por aí batendo de porta em porta pedindo, com se fosse um prato de comida, uma inteligente compreensão.

Domingos Oliveira

Rio de janeiro, 22 de janeiro de 2009.

Fonte: http://bravonline.abril.com.br/blog/domingosoliveira/

Por que os filmes nacionais não são exibidos?


Leis de incentivo, sistema de cotas e co-produções com outros países. Com o auxílio dessas medidas, o cinema brasileiro se desenvolveu muito nos últimos anos. Mas a escassez de salas, a concorrência brutal e a defasada indústria da distribuição ainda dificultam a chegada de filmes ao circuito comercial.


Por Gabriela Rassy

A produção cinematográfica nacional retomou há mais de uma década sua força. Apesar disso, o cinema brasileiro ainda não conquistou proporcionalmente um público tão significativo. Muitos filmes produzidos ainda não chegam às telas. E parte das razões para isso podem ser encontradas nas próprias estratégias usadas para viabilizar a produção.

As leis do Audiovisual e Rouanet são, hoje, as maiores fontes de incentivo para os filmes brasileiros. Elas possibilitam que empresas financiem eventos culturais em troca da dedução de parte do imposto de renda. Nesses casos, o empresário investe, deduz do imposto e aposta no lucro do filme. Mas, segundo o advogado José Maurício Fittipaldi, sócio do escritório Cesnik Quintino & Salinas, especializado em entretenimento e cultura, a prática não funciona bem assim. "Raríssimos filmes dão lucro, então essa não é a preocupação do patrocinador, que investe mais pelo benefício fiscal, que é muito grande", explica Fittipaldi.

Outra alternativa para a produção que a lei permite é a associação com empresas estrangeiras. Quando um filme de outro país é exibido no Brasil, a distribuidora paga um imposto. Pela lei, a empresa pode reverter parte desse imposto para co-produzir outro filme com uma produtora brasileira. "Muitos filmes brasileiros foram viabilizados graças à participação de empresas estrangeiras. Por um lado, quanto mais as empresas estrangeiras lucrarem no Brasil, mais dinheiro elas vão ter para fazer filmes", explica. O que, como as leis de incentivo, têm um colateral. "Por outro lado, elas produzem também os principais concorrentes dos filmes brasileiros", alerta o advogado.

Retomada

O Brasil tem hoje um déficit brutal de salas de exibição e pouquíssimo incentivo à prática de exibição - apenas 9% nos municípios do país têm salas de cinema. Mesmo com a limitada infra-estrutura, é reconhecível que, desde a retomada, o número de filmes nacionais exibidos aumentou muito. "Cresceu o número de distribuidoras dos filmes nacionais e, em 2007, tivemos 82 filmes lançados no cinema. Esse ano começou bem com a estréia de Se eu fosse você 2 que é líder de renda com 4 ou 5 semanas seguidas em cartaz", aponta Pedro Butcher, editor do site Filme B, especializado em mercado cinematográfico.

Outro ponto que colabora com uma produção mais vertiginosa de cinema brasileiro é a facilidade da tecnologia digital. Com ela, o custo para fazer um filme cai consideravelmente, já que uma cópia de 35mm sai, em média, U$ 2 mil.

O crítico de cinema e produtor, Leonardo Mecchi, acredita que hoje há um descompasso entre o modo que os produtores e distribuidores pensam em exibir cinema e a forma como o espectador está consumindo esse tipo de conteúdo. "Existe uma contradição que é o aumento cada vez maior da produção exatamente no momento em que o público que frequenta as salas de cinema cai cada vez mais. Outras mídias (TV, DVD, Internet) acabam assumindo a preferência do espectador na hora de buscar uma alternativa para ver os filmes", disse Mecchi.

Para o produtor, DVDs, locadoras e até mesmo parte dos canais por assinatura estarão completamente obsoletos em um futuro não muito distante. "Você terá uma videoteca virtualmente ilimitada disponível a um toque do teclado, em tempo real e em altíssima definição. Não digo que será o fim do cinema, mas as salas escuras ficarão limitadas a uma restrita elite de apreciadores do cinema enquanto arte (da mesma forma que um museu não é tão frequentado quanto um shopping center)", considera Mecchi.

Festivais

Apesar do público não ter sido tão bom nos últimos dois anos, Butcher ainda aponta outros lados: a imensa quantidade de festivais de cinema, que dão oportunidade de uma cidade ver um filme brasileiro, e a redução dos chamados "sem tela", que são os filmes que não encontravam salas de exibição. "Muitos hoje fazem acordos prévios de exibição com distribuidoras. Os filmes que estão prontos, em geral, estão lançados ou já passaram nos festivais. Portanto, eles acabam chegando às telas, mas em poucas cidades", disse Butcher.

O Brasil possui hoje um amplo circuito de festivais que levam o cinema para mais de 2 milhões de espectadores por ano. E, além dos festivais serem acolhedores com filmes menos comerciais, têm a vantagem de levar o cinema a cidades que não possuem salas de exibição.

"Grande parte do público do cinema brasileiro simplesmente não tem acesso aos filmes - ou porque eles não possuem salas de cinema em suas cidades, ou porque os filmes não chegam a ser programados nessas salas. Além disso, quase todos os festivais brasileiros possuem programação gratuita, o que ajuda a sanar um outro grande fator que motiva a queda de público para o cinema no Brasil: os altíssimos preços dos ingressos", explica Leonardo Mecchi.

Conteúdo

Para Marcelo Dória, produtor de O Cheiro do Ralo, o problema dos filmes brasileiros está no conteúdo. "Os filmes nacionais não são bons produtos. Eles não contam as histórias que o público quer assistir.  Quem vai ao cinema vai ver o Homem Aranha. Brasileiro quer fazer filme cabeça. Lá fora, filme é produto", afirmou Dória.

O produtor acredita que os profissionais fazem filmes para si próprios, sem se preocupar com o mercado ou com a qualidade. "Se alguém vai acreditar que o filme vai dar público, ele vai ser exibido, se não vai ficar 100% dependente de incentivo", declarou.

Pedro Butcher acredita que a produção brasileira começou a mudar agora. "Projetos mais comerciais estão começando, mas o perfil da produção brasileira ainda é muito baseado no conceito de filmes de autores, com temática mais difícil", disse o editor do Filme B.

Fonte: http://bravonline.abril.com.br/conteudo/assunto/filmes-nacionais-nao-sao-exibidos-cota-cinema-419218.shtml

Cotas além da fronteira


Para proteger seus cinemas nacionais, diversos países utilizam o sistema "cota de tela". A cota determina a quantidade de filmes nacionais que devem ser exibidos por ano, no país


Por Gabriela Rassy

No Brasil, a Cota de Tela foi mantida de 2007 para 2009, mas o mecanismo foi estabelecido no país em 1934. A determinação é calculada por dias em exibição, mas depende do número de salas de cada complexo. O mínimo estipulado, por exemplo, para um cinema de apenas uma sala, são dois títulos diferentes lançados ao ano, que fiquem, pelo menos, 28 dias em cartaz. Já um complexo de 11 salas, deve exibir um mínimo de 11 títulos por 506 dias. Acima de 11 salas, o número de filmes é o mesmo, mas a quantidade de dias aumenta.

A Espanha, após revisar o sistema de regulação e fomento à cinematografia em 2007, determinou que a cota fosse baseada em sessões e não mais em dias, considerando que filmes espanhóis ou da União Européia devem ser exibidos em 25% das sessões. Para os canais de televisão, que já tinham que destinar 5% de seu faturamento anual para o financiamento de filmes, a reformulação agora exige que este percentual possa chegar até 12%, mas com variações de acordo com a programação do canal.

A Coréia do Sul, país que vem firmando-se com pólo de produção audiovisual diversificada e de qualidade internacionalmente reconhecida, apresenta uma das maiores taxas de market share para filmes nacionais (cerca de 50%). A política de cota de tela, adotada a partir de 2006, reserva 73 dias anuais para produções cinematográficas nacionais, sendo que, anteriormente, esta cota era de 146 dias anuais.

Desde janeiro de 2009, a Argentina apresentou uma revisão no mecanismo de cotas. Além da quantidade mínima de um filme nacional por trimestre, para cada sala, foi estabelecida a denominada "média de continuidade". Assim, os filmes argentinos que atingirem a média mínima de público estabelecida por lei permanecerão obrigatoriamente em cartaz na mesma sala. Para isso, os títulos são divididos em categorias, de acordo com a dimensão de seu lançamento, e é considerado o tamanho da sala em que o filme foi exibido e a temporada em questão (alta ou baixa). A nova sistemática argentina determina que os filmes de estréia fiquem, no mínimo, duas semanas em cartaz. As informações são da Ancine (Agência Nacional de Cinema).

Alguns países, como a China, optaram historicamente pela adoção do modelo de "cota de importação" de filmes estrangeiros. Apesar da gradual abertura de mercado, o país ainda limita boa parte do conteúdo que vem de fora - apenas 50 títulos por ano. "É um misto de proteção com censura", disse Pedro Butcher.

O cinema francês estipula uma cota para canais de televisão. Segundo informações do site Filme B, 60% do número total de filmes exibidos por ano para cada canal deve ser obras européias, e desses, 40% precisam ser filmes falados em francês.

Fonte:  http://bravonline.abril.com.br/conteudo/assunto/cotas-alem-fronteira-cinema-419217.shtml

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Gomorra

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Logo de cara, algo me incomodou no cartaz de Gomorra, filme do italiano Matteo Garrone. Entre alguns destaques de opiniões da imprensa e o alardeado Grand Prix no último Festival de Cannes, havia um letreiro dizendo algo como “o Cidade de Deus italiano”. Claro que isso não fazia parte do cartaz original e deve ter sido idéia de algum gênio da distribuição nacional ou frase da crítica “especializada”. O fato é que acabei entrando na sessão com a frase na cabeça e com a tarefa de tentar descobrir se tal comparação fazia algum sentido.

Gomorra se refere à máfia local da cidade de Nápoles, a Camorra. No filme, várias histórias são contadas – a saber, dois jovens ignorantes e aspirantes a mafiosos, um menino que entra para o grupo como uma tentativa de obter proteção e ascensão social, um homem que faz o pagamento das famílias protegidas pela máfia, um costureiro que dá aulas a chineses sem que seus empregadores italianos saibam e um especialista em se livrar do lixo dos outros, literalmente – que, eventualmente, se ligam em algum grau. Apesar das histórias individuais, fica claro que o objetivo é demonstrar a vida e seus desdobramentos dentro de um universo controlado em sua totalidade pela máfia italiana. Da praticamente inexistente ação da polícia a dependência dos moradores dos bairros, em Gomorra todos estão sujeitos a ação dos mafiosos e são obrigados a escolher um dos lados para sobreviver na “guerra” dos grupos que lutam pelo poder absoluto.


Para seu tema atual e pesado, Garrone se utiliza de todos os efeitos técnicos e estéticos para representar com imagens toda a dureza e crueza que há na vida dos subúrbios de Nápoles. A câmera na mão e um estilo quase documental de filmar reforçam tal urgência (termo na moda, bastante utilizado hoje em dia) de denunciar (outro termo na moda) as ações da Camorra, que não raramente passam impunes pela justiça. A máfia de Gomorra está bem longa da máfia da família Corleone de Copolla ou dos bares e jantares do Al Capone de De Palma. Ainda que direcionem seus olhares para esse estilo de vida glamourizado, a vida real parece estar mesmo longe da bela fantasia e, a preferência por Tony Montana (personagem central de Scarface, versão de 1983) só demonstra mesmo como os integrantes da Camorra e da máfia verdadeira vivem apenas de sujeira e ilusão (vide a história dos dois jovens), mesmo usando seus agasalhos a la Tony Soprano.


A opção por esse forma mais crua de construir seu filme é o primeiro fato que contesta a referência ao filme do brasileiro Fernando Meirelles. Se Gomorra evita a todo custo uma estilização moderna de suas imagens ou outras formas mais clássicas para desenvolver sua narrativa, Cidade de Deus se apresentava como um espetáculo videoclíptico que somava vários recursos da produção audiovisual da década de 90 e 2000 (principalmente àquela estabelecida com a geração MTV) com um tema essencialmente nacional: a violência e a favela. O que Cidade de Deus fez foi transformar o tema principal e vício do cinema nacional em algo que o grande público pudesse assistir sem muita dificuldade, ao contrário do que fez o cinema novo, que pensou algo parecido, mas não conseguiu se livrar de produzir um cinema consumido apenas por uma pequena elite.


Talvez se possa olhar para os dois filmes, o de Meirelles e o de Garrone, como tentativas de exportar o cinema de seus respectivos países e resgatar ou conquistar olhares do exterior. Se não for um pensamento errado, no caso do primeiro cineasta, deu certo. Ao fazer um filme com um tipo de estética amplamente conhecida e digerida em todo o mundo, Meirelles deu o primeiro passo para sua carreira internacional além de contribuir para que a atenção dada ao cinema brasileiro (que sempre existiu mais em alguns momentos e menos em outros) se reafirmasse e se reforçasse, mesmo que isso acabe soando mais como uma derrota (“se não pode com eles, junte-se a eles”) do que como uma vitória de nossa originalidade. Já Garrone, parece tentar reproduzir em sua crueza um passado do que já foi um dia uma das cinematografias mais influentes do mundo (o neo-realismo) que é a cinematografia italiana, que já há alguns anos carece de produções com boa repercussão mundial. O problema é que talvez ele não tenha se dado conta de que toda a crueza e dureza expostas em seu filme, também já é hoje em dia um recurso cansativamente utilizado, como já foi o glamour da máfia da qual ele tenta se afastar.


Mas, a denuncia nunca é demais e ainda é valida, mesmo que feita através das mesmas novas-velhas fórmulas, vendidas como originais. Assim como foi feito no filme do nosso Zé Pequeno.


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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Lista de Indicados Oscar 2009

Nasceu! Ou melhor, saiu a lista de indicados ao Oscar 2009. Para os lobistas de plantão, Batman – O Cavaleiro das Trevas não foi indicado a melhor filme ou melhor direção. Apenas a esperada indicação de Heath Leadger e uma penca de categorias técnicas. O Curioso Caso de Benjamin Button segue na frente com treze indicações, mas algo me diz que o filme de Fincher vai ser daqueles que acabam a noite embriagados, tamanha a frustração de não ganhar nada ou quase nada. Do jeito que é a Academia, isso é apenas um palpite com base no passado. O “filme indiano” de Danny Boyle, Quem Quer Ser Um Milionário, segue em segundo com dez indicações. Até o dia do Oscar, no dia 22 de fevereiro, estrearão mais alguns filmes da lista de indicados. Vale a pena conferir se são nomeações merecidas, mas como Inês é morta, não adianta mais reclamar e só vai restar mesmo dar o seu palpite.

A seguir, a lista de indicados, junto com meu protesto por Wall-E não estar competindo na categoria de Melhor Filme e com a minha torcida para Mickey Rourke ganhar o prêmio de Melhor Ator e ir receber o prêmio bêbado, como fez no Globo de Ouro só para horrorizar Rubens Ewald Filho.




Melhor Filme:
O Curioso Caso de Benjamin Button
Frost/Nixon
Milk- A Voz da Igualdade
O Leitor
Slumdog Millionaire

Melhor Diretor:
David Fincher, O Curioso Caso de Benjamin Button
Ron Howard, Frost/Nixon
Gus Van Sant, Milk- A Voz da Igualdade
Stephen Daldry, O Leitor
Danny Boyle, Slumdog Millionaire

Melhor Atriz:
Anne Hathaway, O Casamento de Rachel
Angelina Jolie, A Troca
Melissa Leo, Frozen River
Meryl Streep, Dúvida
Kate Winslet, O Leitor

Melhor Ator:
Richard Jenkins, The Visitor
Frank Langellla, Frost/Nixon
Sean Penn, Milk- A Voz da Igualdade
Brad Pitt, O Curioso Caso de Benjamin Button
Mickey Rourke, O Lutador

Melhor Roteiro Original:
Courtney Hunt, Frozen River
Mike Leigh, Happy-Go-Lucky
Martin McDonagh, In Bruges
Dustin Lance Black, Milk- A Voz da Igualdade
Andrew Stanton, Jim Reardon and Pete Docter, WALL-E




Melhor Roteiro Adaptado:
Eric Roth and Robin Swicord, O Curioso Caso de Benjamin Button
John Patrick Shanley, Dúvida
Peter Morgan, Frost/Nixon
David Hare, O Leitor
Simon Beaufoy, Slumdog Millionaire




Melhor Ator Coadjuvante:
Robert Downey Jr., Trovão Tropical
Michael Shannon, Foi Apenas um Sonho
Philip Seymour Hoffman, Dúvida
Heath Ledger, Batman- O Cavaleiro das Trevas
Josh Brolin, Milk- A Voz da Igualdade

Melhor Atriz Coadjuvante:
Amy Adams, Dúvida
Penelope Cruz, Vicky Cristina Barcelona
Viola Davis, Dúvida
Taraji P. Henson, O Curioso Caso de Benjamin Button
Marisa Tomei, The Wrestler

Melhor Filme de Animação:
Bolt
Kung Fu Panda
WALL-E

Melhor Direção de Arte:
A Troca
O Curioso Caso de Benjamin Button
Batman - O Cavaleiro das Trevas
A Duquesa
Foi Apenas um Sonho

Melhor Fotografia:
A Troca
O Curioso Caso de Benjamin Button
Batman- O Cavaleiro das Trevas
O Leitor
Slumbag Millionaire

Melhor Edição:
O Curioso Caso de Benjamin Button
Batman - O Cavaleiro das Trevas
Frost/Nixon
Milk- A Voz da Igualdade
Slumdog Millionaire

Melhor Música Original:
Down to Earth de WALL-E, Peter Gabriel e Thomas Newman
Jai Ho de Slumdog Millionaire, A.R. Rahman e Gulzar
O Saya de Slumdog Millionaire, A.R. Rahman e Maya Arulpragasam

Melhor Trilha Original:
O Curioso Caso de Benjamin Button, Alexandre Desplat
Defiance, James Newton Howard
Milk- A Voz da Igualdade, Danny Elfman
Slumbag Millionaire, A.R. Rahman
WALL-E, Thomas Newman

Melhor Figurino:
Austrália
O Curioso Caso de Benjamin Button
A Duquesa
Milk- A Voz da Igualdade
Foi Apenas um Sonho

Melhor Maquiagem:
O Curioso Caso de Benjamin Button
Batman- O Cavaleiro das Trevas
Hellboy II: O Exército Dourado

Melhor Curta:
La Maison en Petits Cubes
Lavatory - Lovestory
Oktapodi
Presto
This Way Up




Melhor Documentário:
The Betrayal (Nerakhoon)
Encounters at the End of the World
The Garden
Man on Wire
Trouble the Water




Melhor Documentário em Curta Metragem:
The Conscience of Nhem En
The Final Inch
Smile Pinki
The Witness - From the Balcony of Room 306




Melhor Filme Estrangeiro:
The Baader Meinhof Complex, Alemanha
The Class, França
Departures, Japão
Revanche, Austria
Valsa com Bashir, Israel

Melhor Mixagem de Som:
O Curioso Caso de Benjamin Button
Batman- O Cavaleiro das Trevas
Slumbag Millionaire
WALL-E
O Procurado

Melhor Edição de Som:
Batman- O Cavaleiro das Trevas
Homem De Ferro
Slumbag Millionaire
WALL-E
O Procurado

Melhor Efeitos Especiais:
O Curioso Caso de Benjamin Button
Batman- O Cavaleiro das Trevas
Homem De Ferro

O Curioso Caso de Benjamin Button
















Era o final da Primeira Grande Guerra Mundial e Benjamin Button nascia em circunstâncias incomuns: seu enrugamento não era devido aos nove meses banhado em líquido, mas a um estado quase decréptico, como se Benjamin Button estivesse no fim de sua vida, nos últimos instantes antes de sua morte. Apavorado, seu pai o larga em uma porta qualquer, que ironicamente se revela uma casa de repouso de idosos. Benjamin então é criado lá como se não tivesse muito tempo de vida, mas, com o passar dos anos, percebe que ao contrário das outras pessoas, ao invés de envelhecer fisicamente ele está ficando mais jovem.


É baseado num conto do autor estadunidense F. Scott Fitzgerald, que o diretor David Fincher (Seven, Clube da Luta, Zodíaco) repete pela terceira vez a parceria com o ator Brad Pitt e cria uma bonita fábula para adultos sobre a morte, o passar do tempo e a aceitação do diferente.


O Curioso Caso de Benjamin Button conta a saga de seu personagem título nascido em Nova Orleans, no estado de Louisiana, desde o ano de 1918 até 2005, com a chegada do Furacão Katrina. O roteiro do filme é de Eric Roth, o mesmo de Forrest Gump – O Contador de Histórias, e talvez por isso a semelhança com a trajetória do personagem abobado de Tom Hanks se faça presente em muitos momentos. Benjamin, ao longo dos anos e com a curiosidade daqueles que são obrigados a enxergar a vida com outros olhos, passa por momentos históricos do século XX e, se não os influencia diretamente como Forrest, não deixa de se enriquecer com todas as experiências.


E assim como o personagem de 1994, ele também cultiva um amor durante toda a vida. Daisy conheceu Benjamin quando os dois ainda eram “crianças” e, apesar de não se prender a esse amor, ele nunca se esqueceu da bela jovem. Entre encontros e desencontros, é no meio de suas vidas, por volta dos quarenta e poucos anos, quando os dois parecem ter fisicamente a mesma idade, que se desenvolvem as reflexões sobre o tempo e a morte de maneira mais presente e inevitável.


No filme de Fincher, a morte é constantemente lembrada como característica intrínseca à vida. Como dizem os personagens, mesmo que lutemos contra e reclamemos, quando chegar a nossa hora, não há nada a fazer a não ser se conformar. A partir disso, pensar como Benjamin Button é pensar como alguém que não permitiu que eventuais adversidades pudessem impedi-lo de descobrir a vida e tudo o mais que ela tem a oferecer.


Assim como uma fábula, cheia de signos e símbolos, a impecável direção de arte, a trilha sonora, a incrível maquiagem, a montagem, tudo construído para capturar o espectador e levá-lo a imergir nesse mundo extremamente misterioso e atraente aos olhos do personagem título. Mas, ao mesmo tempo, um estranho realismo se alia o tempo todo com esses artifícios representativos. Talvez um tema tão caro aos homens até hoje como é a morte ou a passagem de um conto-de-fadas na recém destruída Nova Orleans nos traga a todo o momento de volta ao mundo real, percebendo que aquela história fala de nós mesmos, de nossos medos, de nossos preconceitos, e de nossos sonhos frustrados ou abandonados pelo caminho.


A posição curiosa de Benjamin Button, sua tranquilidade e sua forma de olhar para tudo como se fosse a primeira vez, vai revelando a nossa frente todo um mundo fascinante, e como ele mesmo diz a certa altura do filme, que não olha para si mesmo, nós também deixamos de prestar atenção nele (que contorna em pouco tempo o caráter grotesco de sua aparência em um incrível carisma) para olharmos para o mesmo mundo e para as figuras que encontramos pelo caminho, como se não conseguíssemos mais fazer isso na vida real, quando nossa visão está tão acostumada a tudo, que só precisamos de um detalhe ou de um vislumbre para “concluir” o resto. Talvez por isso, apesar de sabermos seu destino, a cada fase de rejuvenescimento nos espantemos mais com sua aparência, com a qual rapidamente já havíamos nos acostumado antes. É na dificuldade e obstinação ao andar de muletas, num tímido olhar no elevador, na fala mansa, sulista e arrastada ou na postura de um corpo franzino de um quase adolescente que nos transformamos e reagimos da mesma forma que Benjamin, nos identificando, cada um da sua maneira.


Depois do reconhecimento de uma carreia construída com filmes de temáticas fortes como o thriller Seven – Os Sete Pecados Capitais, o cult Clube da Luta e o tenso Zodíaco, David Fincher escolhe aqui um trabalho bastante diferente na história de sua cinematografia, e se sai bem. Se O Curioso Caso de Benjamin Button não é a fábula contemporânea definitiva, é ao menos um belo trabalho de maturidade, seja de seus criadores – e aqui destaco as figuras essenciais de David Fincher e Brad Pitt -, seja do próprio personagem título, que mesmo tendo como “adversidade” uma característica que é o sonho de muitas pessoas, percebe que o caminho do início ao fim acaba sendo bastante semelhante aos que são normais. E é brilhantemente que Daisy diz à frase que resume nossas vidas: “no final, todos nós usamos fraldas”. ;-)




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domingo, 18 de janeiro de 2009

Retrospectiva 2008 - segunda parte

Por alguns problemas técnicos, esse post vai sem imagens. Ficarei devendo desta vez.   ;-)


Julho


Livro de Cabeceira (Peter Greenway) deu inicio aos filmes do mês de férias. Em seguida, Carlitos encontra 2001: Uma Odisséia no Espaço na obra-prima da Pixar, Wall-E (Andrew Stanton). O visceral Cidade Baixa (Sérgio Machado) e o excelente O Prisioneiro da Grade de Ferro (Paulo Sacramento) foram os destaques nacionais. Para completar, o tocante O Escafandro e a Borboleta (Julian Schnabel), o melancólico Morangos Silvestres (Ingmar Bergman) e o maior sucesso comercial do ano Batman – O Cavaleiro das Trevas (Christopher Nolan).



Agosto


O mês do meu aniversário foi um mês de clássicos. Começou com O Anjo Exterminador (Luís Buñuel), seguiu com Manhattan (Woody Allen), o decepcionante Os Bons Companheiros (Martin Scorcese), o comovente neo-realista Ladrões de Bicicleta (Victorio De Sicca), o, por ora, meu filme favorito de Glauber Rocha, Dragão da Maldade, mais um Bergman em Gritos e Sussurros. Menção para outro filme nostálgico como Chega de Saudade, mas desta vez vindo da França, Quando Estou Amando (Xavier Giannoli), para o interessante Time (Kim Ki-Duk) e para o melodramático musical de Lars Von Trier, Dançando no Escuro.



Setembro


Mês de mostras e do novo de Fernando Meirelles agitaram setembro. Da retrospectiva Alain Resnais – A revolução discreta da memória, pérolas como Providence, Muriel ou o Tempo de um Retorno e A Guerra Acabou fizeram-me entender e admirar ainda mais o diretor dos obrigatórios Hiroshima, Mon Amour e o Ano Passado em Marienbad. A mostra Oriente Desconhecido (também realizada no CCBB de São Paulo) reuniu um pouco do trabalho de diretores relevantes da cinematografia asiática. Pude conferir Xiao Wu – Artisan Pickpocket (Jia Zhang-ke), All Tomorrow´s Parties (Yu Lik-Wai) e na primeira semana de outrubro ainda assisti a Samaria (Kim Ki-duk) e Tropical Malady (Apichatpong Weerasethakul). Houve a estréia de filmes de dois dos principais diretores nacionais, o “sem alma” Ensaio Sobre a Cegueira (Fernando Meirelles) e o bom Linha de Passe (Walter Salles). Direto de outra mostra, o insano e brilhante Império dos Sonhos (David Lynch). Lembranças do divertido filme de monstro coreano O Hospedeiro (Joon-ho Bong), de Baixio das Bestas, filme de Cláudio Assis parecido com Amarelo Manga e que novamente não consegui gostar e, por fim, do ótimo documentário Joy Division (Grant Gee).



Outubro


Mês da excessivamente cara Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para mim, mês da última parte da trilogia da incomunicabilidade de Antonioni, A Noite; de dobradinha Michael Haneke com Cache e Funny Games (original e não a refilmagem) de dobradinha François Truffaut com Jules e Jim e Fahrenheit 451; de conferir o péssimo e constrangedor segundo filme de Richard Kelly depois do cult Donnie Darko, Southland Tales; do ótimo Estômago (Marcos Jorge), do superestimado Canções de Amor (Christophe Honoré); do profundo Felizes Juntos (Wong Kar-Wai); do excelente e clássico A Regra do Jogo (Jean Renoir); de mais um Resnais com Meu Tio da América; do ótimo Na Mira do Chefe (Martim McDonaugh); Julieta dos Espíritos (Federico Fellini) e dois filmes direto da mostra: o engraçadíssimo Segurando As Pontas (David Gordon Green) e A Festa da Menina Morta (Mateus Nachtergaele, sobre o qual eu já escrevi aqui).



Novembro


Novembro foi um mês curto em filmes pela proximidade do final de ano, mas houve boas opções. As lembranças do cinema ficam por conta de Vicky Cristina Barcelona (Woody Allen voltando a forma) e do primeiro e muito bom filme de estréia de Selton Mello na direção, Feliz Natal. No mais, Terra em Transe (de Glauber Rocha), o interessante Estamos Bem Mesmo Sem Você (Kim Rossi Stuart) e dois excelentes filmes: Sindicato de Ladrões (Elia Kazan) com um gigantesco Marlon Brando e o documentário obrigatório Serras da Desordem do cineasta Andrea Tonacci.



Dezembro


O último mês do ano começou muito bem com Pierrot Le Fou, de Jean-Luc Godard, que também apareceu com sua versão dos filmes de ficção científica em Alphaville. No cinema, o novo e divertido dos irmãos Coen, Queime Depois de Ler, Leonera (Pablo Trapero), o espanhol de trash REC (Jaume Balagueró e Paco Plaza), Romance (Guel Arraes) e o novo de Philippe Garrel, A Fronteira da Alvorada. Espaço ainda para Crepúsculo dos Deuses (Billy Wilder, já comentado aqui), o lindo Meu Amigo Totoro (Hayao Miyazaki), o clássico de ficção cientifica de 1951, O Dia Em Que a Terra Parou (Robert Wise), Sr. Vingança (Chan Wok Park), Festim Diabólico (Alfred Hitchcock), o filme natalino definitivo que não poderia faltar nessa época A Felicidade Não Se Compra (Frank Capra) e terminei o ano com o último filme de Robert Altman, A Última Noite.




Esses foram alguns dos destaques que conferi durante o ano. Muita coisa boa e ruim ficou de fora. Para o próximo ano, eu pensarei em uma nova forma de “listar” esses destaques.



Bom, até mais.